
Todo dia, chegando ou saindo do trabalho, passo por duas mulheres que vivem na rua. Duas mendigas. Por alguma razão que desconheço, sempre me elegem para pedir 1 real. Já fiz de tudo: respondi educadamente, gritei, mostrei meu dedo médio em riste, mas nada adiantou. Elas sempre me escolhem em meio a diversos grupos de pessoas. Sozinho então, nem se fala.
Atualmente, minha tática se resumiu a ignorá-las. Não funciona do mesmo jeito, mas diminui meu stress. Contudo isso me fez refletir... Eu as estou tornando invisíveis. Fui mais além e percebi como minha própria percepção (que construção gramatical exemplar...) tem feito o mesmo com o cadáver no meio da rua, coberto com plástico preto; com os inevitáveis meninos de rua; com as cenas de violência diária; sejam do Palácio do Planalto ou da favela mais próxima. Vou endurecendo a cada dia, me acostumanado com o caos.
A conclusão: quanto mais coisas tenho de tornar invisíveis, mais percebo que quem está desaparecendo sou eu...